Professora foi morta pelo ex-companheiro diante de filho

13 de janeiro de 2021

Em menos de cinco dias, mais uma mulher foi vítima da violência de gênero no Distrito Federal. Mesmo após registrar duas ocorrências contra o ex-companheiro e estar separada dele há quase um ano, a professora aposentada Marley de Barcelos Dias, 54 anos, foi assassinada com três tiros à queima-roupa, dentro de casa, em Sobradinho. O crime ocorreu ontem, diante de um dos filhos dela. O eletricista Geovane Geraldo Mendes da Cunha, 44, invadiu a residência e a matou. Durante perseguição policial horas depois, tirou a própria vida.

O casal estava separado desde 22 de maio, quando Marley denunciou Geovane por perturbação e ameaça, no âmbito da Lei Maria da Penha. Embora a vítima não tenha procurado a polícia novamente, o filho Éric de Barcelos Dias, 23, relatou à polícia que Geovane continuou importunando a ex e a ameaçava de morte.

Na madrugada de ontem, ele chegou ao condomínio da vítima às 3h, conduzindo o carro emprestado pela irmã, um VW Voyage branco. Imagens do circuito interno de segurança do local mostram o acusado parando o veículo na guarita. Mesmo sem o cartão de acesso, ele tem a entrada liberada em menos de 40 segundos. Câmeras flagraram o eletricista estacionando o automóvel em frente àcasa da vítima e, na sequência, pulando o muro do local. Ele entrou na casa sem arrombar a porta. Marley acordou com a movimentação e encontrou Geovane na sala. Ali, houve uma discussão e a mulher foi para a cozinha.

Na casa, estava apenas o filho mais velho de Marly, que também despertou como barulho — o caçula, Vinícius, dormia fora. O jovem, que é militar do Exército, se juntou à mãe no cômodo tentou defendê-la, mas Geovane disparou três vezes, à queima-roupa, contra a vítima.

Vizinhos escutaram os disparos de arma de fogo e acionaram a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros. “Ele pulou o muro para executar a ex-mulher, que tinha medo dele e, por isso, mantinha as medidas protetivas. Mesmo assim, esse homem passou pela portaria, dando o próprio nome, invadiu a residência e cometeu um crime bárbaro como esse”, reflete um morador do condomínio, sob a condição de anonimato.

A reportagem procurou o subsíndico do residencial, Odilon Pereira de Almeida, que disse colaborar com as investigações da 13ª Delegacia de Polícia (Sobradinho 1). “Todas as informações e filmagens foram encaminhadas à polícia. Vamos acompanhar a apuração do caso. O condomínio lamenta o que ocorreu.”

Fuga

Geovane fugiu depois de cometer o feminicídio, levando as chaves do carro da ex-mulher, seguindo no sentido Planaltina. Com as informações do veículo e do suspeito, as polícias Militar e Rodoviária passaram a procurá-lo. O eletricista foi localizado seis horas depois, no município goiano de São Gabriel. Durante a perseguição, em uma estrada de terra, o acusado estacionou o automóvel e tirou a própria vida, com um tiro.

De acordo com o delegado Hudson Maldonado, chefe da 13ª DP, o funcionário do condomínio será intimado a depor nesta semana, assim como a irmã de Geovane. “Ao que tudo indica, o porteiro foi ludibriado pelo autor. Mas isso não o exime da negligência de deixar de lado as regras de segurança do local. Quanto à familiar do acusado, vamos questionar sobre as circunstâncias em que o veículo foi emprestado”, afirma.

Marley chegou a denunciar o ex duas vezes em seis anos de relacionamento amoroso. Eles eram primos de primeiro grau, e chegaram a morar juntos na casa da vítima, no Condomínio Império dos Nobres, no início do namoro, em 2014. A primeira ocorrência da vítima contra o suspeito foi registrada em 21 de dezembro daquele ano.

Na ocasião, eles haviam terminado o relacionamento e Geovane foi à residência para recolher os objetos pessoais. A professora chegou pouco tempo depois, e passou a ser xingada e ameaçada. Ela informou, em depoimento à polícia, que o eletricista estava em surto. O homem precisou passar por atendimento de urgência antes de prestar depoimento na 13ª DP.

Em 22 de maio passado, Marley registrou a segunda ocorrência contra o ex-marido, pelos mesmos crimes, e houve a separação definitiva. “Conforme depoimentos coletados, o autor seria uma pessoa problemática, possessiva e agressiva. Tinha problemas psiquiátricos e chegava a tomar as medicações, mas as misturava com drogas e álcool. Agora, vamos fechar algumas lacunas do caso, por exemplo, como ele entrou na residência sem arrombar a porta”, diz Hudson Maldonado.

Por nota oficial, a Secretaria de Educação informou que Marley era servidora da pasta e que se aposentou em 2017. Ela chegou a atuar como diretora do Centro de Educação Infantil 4 (CEI) de Sobradinho. Questionada sobre o afastamento de Geovane, a CEB informou que lamenta e “repudia de maneira contundente qualquer tipo de violência” e que “por determinação legal, não pode se manifestar publicamente sobre quaisquer funcionários que porventura estejam respondendo a processos administrativos disciplinares em andamento”.

Prevenção
Andrea Costa, advogada especialista em direito penal e palestrante sobre combate à violência contra a mulher, considera que as medidas protetivas são eficazes em muitos casos, mas alerta que essa eficácia está comprometida por alguns fatores, entre eles, a ausência de comunicação a terceiros sobre a medida deferida; vergonha da vítima; e descaso por parte dos órgãos de proteção, que em algumas situações “tendem a minimizar a seriedade do caso”.

A especialistas acredita que programas de educação destinados ao público jovem, o acompanhamento psicológico do agressor e da vítima, o monitoramento dos agressores após a concessão de medida protetiva e o fornecimento de recursos para as vítimas, como casa abrigo e cursos profissionalizantes, podem auxiliar no combate aos crimes de feminicídio.

Dados atualizados da Secretaria de Segurança Pública do DF mostram que, em 2020, 17 mulheres perderam a vida em razão do gênero, redução de 46,8% em relação a 2019. A pasta garantiu que o enfrentamento ao feminicídio “é prioridade da atual gestão” e elencou as estratégias de prevenção para evitar crimes desse tipo, como a criação da nova Deam, em Ceilândia. A unidade funciona 24 horas por dia.

Outra ação é a campanha #MetaaColher. “O entendimento é de que é necessário desconstruir o padrão de comportamento omisso que muitas vezes uma testemunha assume diante de uma cena de violência doméstica”, destaca a secretaria, que conta ainda com o aplicativo Viva Flor, ferramenta que permite às forças de segurança atender a vítima que acioná-la em caso de risco. A instalação é feita após encaminhamento do Judiciário.

Fonte: Correio Braziliense