Atacada por Bolsonaro, Lei da Ficha Limpa puniu mais o PT do que o PL

18 de fevereiro de 2025

Os números de candidaturas barradas com base na Lei da Ficha Limpa, nas eleições da última década, contradizem o argumento utilizado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na defesa pela revogação ou alteração do texto.

Inelegível até 2030, após condenação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ele afirma que a lei, “hoje em dia, serve apenas para perseguir os políticos de direita”.


Lei da Ficha Limpa

  • Lei foi aprovada em 2010 e aplicada pela primeira vez nas eleições de 2012. Texto puniu candidaturas de todos os espectros políticos.
  • O objetivo central da lei é impedir a eleição de candidatos “fichas sujas”, ou seja, aqueles condenados por órgãos colegiados.
  • Ela surgiu de uma iniciativa popular, que recolheu mais de 1,6 milhão de assinaturas e que envolveu entidades representativas.
  • Foram mais de dois anos de discussão da minuta do projeto de lei até a aprovação no Congresso.

Nas últimas cinco eleições, entre municipais, estaduais e federais, o Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, teve número maior de candidaturas enquadradas na Lei da Ficha Limpa do que o Partido Liberal (PL), de Bolsonaro. Juntando os cinco pleitos, de 2016 a 2024, foram 333 registros do PT indeferidos contra 259 do PL.

O mesmo comparativo revela que não só o PT, mas outros partidos da base de Lula também registraram um número maior de candidaturas barradas pelos critérios da lei, em comparação com a atual sigla de Bolsonaro. O Partido Socialista Brasileiro (PSB), do vice-presidente Geraldo Alckmin, teve 377 indeferimentos, e o Partido Democrático Trabalhista (PDT), 331.

Veja:

A Flourish bar chart race

Placar da Ficha Limpa nas eleições de 2024

Numa análise separada, com base nos dados somente da última eleição, PT e PL quase empataram, mas, ainda assim, o representante da esquerda ficou à frente, com uma candidatura a mais enquadrada nos critérios da Ficha Limpa. Foram 122 registros do PT indeferidos pela Justiça Eleitoral contra 121 do PL.

pleito de 2024 atingiu um total de 1.968 registros barrados com base na lei, sendo 1.736 de candidatos a vereador, 187 a prefeito e 45 a vice-prefeito. Acima de PT e PL, aparecem o MDB, com 196 candidaturas enquadradas; PP, com 162; PSD e União Brasil, com 161 cada; e Republicanos, com 137.

“Não há razão para flexibilizar”, diz idealizador da Ficha Limpa

Diante da investida recente e dos projetos contrários protocolados no Congresso Nacional por deputados aliados de Bolsonaro, o advogado e ex-juiz Márlon Reis, um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa, diz que “não há razão para flexibilizar uma lei que sequer conseguiu debelar a sua razão de existir”.

Uma das propostas, sugeridas pelo deputado federal Bibo Nunes (PL-RS), prevê a redução do período de inelegibilidade de oito para dois anos, apenas, o que beneficiaria, diretamente, Bolsonaro nos planos de candidatura em 2026.

“A inelegibilidade não faz sentido se não puder deixar a pessoa submetida à condenação afastada do processo eleitoral por alguns períodos. Se há um retorno imediato, temos uma fraude à Constituição”, defende Reis.

O texto da Lei da Ficha Limpa é ancorado no parágrafo nono do artigo 14 da Constituição Federal, que prevê a inelegibilidade como uma proteção à probidade administrativa e à moralidade para o exercício de mandatos. Nos últimos 10 anos, foram mais de 6,8 mil candidaturas barradas pela Justiça Eleitoral.

Veja:

A Flourish chart

 

FONTE: METRÓPOLES