Imagine atender a uma videochamada e, do outro lado da tela, reconhecer imediatamente o apresentador de um programa de sorteios do qual você participa. Ele sorri, diz seu nome e anuncia: “Você ganhou R$ 50 mil”. Golpe? Provavelmente não seria essa a sua primeira suspeita.
É exatamente nessa confiança que criminosos estão apostando ao usar deepfake, uma tecnologia de inteligência artificial capaz de clonar imagem e voz de outra pessoa, para aplicar golpes cada vez mais sofisticados por meio de chamadas de vídeo.
Uma servidora pública do Distrito Federal, que preferiu não se identificar, foi alvo de uma tentativa de golpe nessa modalidade no último domingo (11/1). Por pouco, os criminosos não tiveram acesso aos seus dados bancários.
“Recebi uma videochamada pelo WhatsApp, de um número de São Paulo, com a foto de perfil do programa Viva Sorte. Quando atendi, apareceu o apresentador Renato Ambrosio, que falou meu nome e disse que eu havia ganhado R$ 50 mil. Como eu realmente comprava títulos de capitalização do sorteio, não desconfiei. Parecia tudo muito real”, relata a mulher.
O Viva Sorte é um título de capitalização que permite concorrer a prêmios com o número adquirido. Os sorteios são divulgados aos domingo no programa televisivo apresentado por Ambrosio e pelas redes oficiais da premiação.
A vítima conta que o golpista usava a imagem de Ambrosio e tinha a mesma voz que ele. O falso comunicador pediu a chave Pix e o CPF dela para fazer a transferência do valor e orientou que, em seguida, ela compartilhasse a tela do celular quando acessasse o aplicativo do banco.
“Eu cheguei a pular de alegria ao saber que tinha ganhado o prêmio. O apresentador fake até falou o meu nome completo e meu e-mail na ligação”, comenta.
O golpista explicou que o intuito da gravação era ver o valor do prêmio sendo depositado na conta dela. “O meu aplicativo do banco estava instalado em outro aparelho meu. Eles pediram que eu filmasse o aplicativo do banco, foi quando comecei a desconfiar”, conta.
De acordo com a servidora, o golpista chegou a dizer que poderia demorar um pouco para o dinheiro cair na conta dela, tendo em vista se tratar de uma quantia alta.
“Enquanto eu pegava meu outro celular, ele chegou a perguntar o que eu faria com os R$ 50 mil e disse que, no dia seguinte, a produção do programa entraria em contato para marcar a gravação da entrega de um cheque simbólico”, relembra.
O golpe só não se concretizou porque a mulher pediu ajuda aos filhos para verificar a veracidade da ligação na internet. Foi então que um deles encontrou, na página oficial do verdadeiro apresentador do programa, um vídeo alertando sobre golpes que usam indevidamente sua imagem.
“Imediatamente encerrei a ligação quando percebi que se tratava de uma tentativa de golpe”, diz.
A vítima conta que procurou uma delegacia da Polícia Civil do DF para saber como deveria proceder, já que, apesar de não ter informado dados bancários, os golpistas tinham sua imagem e seu CPF.
Segundo ela, o atendente explicou que, como não houve prejuízo financeiro nem repasse de valores via Pix, ela poderia acessar o site do Banco Central, entrar na área de registros pelo Gov.br e verificar se havia contas, empréstimos ou outras movimentações abertas em seu nome.
A mulher afirmou que seguiu a recomendação, gerou o relatório e constatou que “não havia nada irregular”, o que a deixou mais tranquila.
Casal perdeu R$ 30 mil
Um casal de aposentados da zona norte de Marília, no interior de São Paulo, perdeu mais de R$ 30 mil, após cair no golpe aplicado por criminosos que se passaram pelo apresentador de TV.
A mulher, de 72 anos, recebeu uma videochamada de um homem que afirmou que ela havia sido sorteada em uma promoção de título de capitalização, com prêmio de R$ 50 mil. O golpista, que usava um cenário semelhante ao de um programa televisivo, solicitou dados bancários e pessoais para “efetuar o depósito do valor”.
Convencido pela encenação, o casal seguiu as instruções dos criminosos, abriu contas em um banco digital e enviou documentos e fotos. Pouco depois, receberam um depósito de R$ 6 mil, o que aumentou a confiança na suposta premiação.
Com acesso às contas, os golpistas realizaram transferências via Pix e contrataram empréstimos em nome das vítimas, causando um prejuízo total superior a R$ 30 mil. O casal só percebeu a fraude após ser alertado por um vizinho.
Alerta para golpe
O apresentador Renato Ambrosio alertou o público sobre golpistas que estão usando sua imagem para tentar enganar pessoas. Em um vídeo publicado nas redes sociais, ele reforçou que não liga para ninguém, não pede dinheiro e não comunica prêmios por telefone.
Ambrosio destacou que, se alguém receber uma ligação usando o rosto dele, deve desconfiar imediatamente, já que a voz e o comportamento não correspondem aos dele.
“Eu não ligo para ninguém pedindo dinheiro. Se alguém te ligar com este rosto aqui, é golpe. Bloqueie”, afirmou o apresentador.
Veja vídeo:
Ainda no alerta, o comunicador pediu que as famílias orientem pais e mães para evitar que caiam em golpes. Ele enfatizou que, ao receber qualquer ligação suspeita, o correto é bloquear na hora, pois se trata de criminosos tentando tomar dinheiro de pessoas honestas.
Ambrosio afirmou que o aviso já foi repetido diversas vezes, inclusive no Viva a Sorte, mas que muitos ainda insistem em acreditar nos estelionatários.
Em postagens feitas pelo Instagram oficial do sorteio, a empresa de capitalização também fez alertas sobre o golpe. “Se alguém te ligar por vídeo dizendo ser do Viva Sorte: é fraude”, reforçou.
“O Viva Sorte e o Renato não enviam links suspeitos no WhatsApp; não pedem a confirmação do seu prêmio; e muito menos cobram taxas para que receba seu prêmio. Nunca compartilhe sua tela e envie dados bancários”, salientou a empresa de sorteios.
Por fim, o Viva Sorte reforçou que não houve vazamento de dados pela plataforma. “Todas as informações dos clientes estão protegidas em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Estamos tomando todas as medidas cabíveis e legais perante a situação seguindo com todas as denúncias”, pontuou.
Golpes difíceis de identificar
Segundo o professor e advogado especialista em direito digital e inteligência artificial Lucas Karam, hoje já existem ferramentas gratuitas e de fácil acesso capazes de clonar com perfeição vozes, imagens, gestos e expressões faciais de pessoas reais.
“Com o advento da tecnologia e a evolução da inteligência artificial, hoje já não é mais possível distinguir o real do artificial”, alerta o especialista.
De acordo com ele, essas ferramentas vêm sendo usadas para construir narrativas altamente persuasivas, com o objetivo de enganar vítimas em golpes cada vez mais elaborados, muitas vezes utilizando a imagem de celebridades para gerar credibilidade.
Apesar de o Brasil ainda não contar com uma legislação específica que regulamente o uso da inteligência artificial, Karam explica que isso não significa ausência de punição.
“Mesmo sem uma lei específica sobre deepfakes, existem outros dispositivos legais que acabam enquadrando essas condutas”, afirma.
Entre os crimes que podem ser caracterizados estão a falsidade ideológica e a fraude eletrônica, por exemplo, quando alguém utiliza a imagem de outra pessoa para obter empréstimos ou vantagens financeiras.
O especialista ressalta a importância do senso crítico e da checagem de informações em fontes confiáveis antes de qualquer decisão. “Filtrar informações e desconfiar sempre é a melhor forma de se proteger nesse novo cenário digital”, conclui.






