
Dia cansativo, hora de voltar para casa. Além de ter que encarar um transporte público de má qualidade e, na maioria das vezes, lotado, quem mora no Distrito Federal passa por outro desafio: esperar pelo ônibus em paradas totalmente escuras.
O Metrópoles percorreu alguns pontos onde a má iluminação pública deixa quem está aguardando pelo coletivo apreensivo. É o caso de Wendel de Oliveira, 23 anos, que trabalha em Vicente Pires.
Todos os dias, por volta das 19h, ele chega na parada que fica na DF-095, conhecida como via Estrutural, na altura da Chácara 151 de Vicente Pires. Segundo ele, o principal problema causado pela escuridão é que os motoristas, por não enxergarem quem está na parada, acabam passando direto pelo ponto.
“Uma pessoa que estiver completamente de preto, por exemplo, precisa usar a lanterna do celular para chamar a atenção dos condutores. Mesmo assim, às vezes, eles só conseguem ver em cima e acabam passando direto”, afirmou.
O morador do Setor O disse que, em alguns casos, ficou cerca de duas horas na parada, até conseguir entrar em um ônibus. “Já houve situações em que precisei pegar um ônibus até um local melhor iluminado para, aí sim, conseguir embarcar no que vai para minha casa”, comentou.
Parada solitária
No Guará 2, a situação não é diferente. Na parada em frente a um colégio particular, a reportagem encontrou Mônica Caetano, 31, e Luana Mates, 32, esperando pelo ônibus sozinhas, também no escuro.
De acordo com Mônica, os postes de iluminação pública da região apagaram há cerca de um mês. “Nesse horário que vou para casa, a sensação de insegurança é maior ainda, pois o ponto fica bastante deserto”, lamentou.
A moradora da Candangolândia pontuou que isso gera certa vulnerabilidade. “No meu caso, é pior ainda, por ser mulher. Além disso, a parada fica bem ao lado do terminal do Guará, onde tem algumas pessoas em situação de rua”, apontou.
“Já fui intimidada e quase que obrigada a ajudar um deles, para que me deixasse em paz. Estava sozinha no dia e acabei cedendo por medo de que ele fizesse alguma coisa comigo”, lembrou Mônica.
Luana, que mora em Santo Antônio do Descoberto (GO), cidade que fica no Entorno DF, disse que nos finais de semana a situação é ainda pior. “Além da escuridão, o baixo movimento de carros e de pessoas causa uma sensação de medo ainda maior”, avaliou.
Ela disse que nunca foi abordada por uma pessoa em situação de rua. “Mas já houve vezes em que só tinha eu de mulher na parada, com alguns homens ao meu redor, o que me deixou receosa. Quando isso ocorre, acabo ficando mais afastada da parada, por precaução”, afirmou.
“Sendo mulher, é mais complicado ainda (ficar em uma parada escura). Atualmente, não precisamos fazer nada para sermos vítimas de qualquer tipo de crime. O medo é grande”, desabafou.
Outros pontos
Na área central de Brasília, as obras na Epig, além da poeira, a falta de iluminação nas paradas também deixa um rastro de medo em quem precisa esperar por um ônibus nos pontos localizados em toda a extensão da via.
Em frente à Octogonal, o Metrópolesencontrou Raquel Sampaio, 34, que passa pelo local todos os dias, durante a noite. “Sempre pego ônibus nessa parada, quando volto para casa. Até pouco tempo atrás, tinha uma iluminação provisória, porém, tiraram os refletores há cerca de duas semanas”, disse.
Segundo a moradora de Taguatinga Norte, isso dificulta ainda mais a volta para casa. “A escuridão não deixa os motoristas enxergarem a gente nas paradas. Às vezes, precisamos recorrer às lanternas dos celulares para que eles percebam a nossa presença, caso contrário, eles passam direto”, comentou.
O perigo também está presente em uma parada da EPNB, mais precisamente na altura da QN 1, no Riacho Fundo I. Por lá, Pedro Uinter, 27, precisa esperar o ônibus que o leva até o trabalho em um ponto completamente às escuras.
“O trecho está completamente escuro há cerca de seis meses, o que causa uma sensação de insegurança. Por causa da falta de luz, quando escurece, o caminho embaixo das árvores fica totalmente sem iluminação, quase não dá para enxergar”, descreveu.
Pedro disse que fica bastante receoso por causa da situação. “Sempre olho para os lados, com medo de quem tenha alguém escondido. Por sorte, fico aqui em horários mais movimentados, mesmo assim, o perigo de que ocorra algo existe”, ressaltou.
Nova lei
Desde janeiro, a Lei nº 7.793/25, que institui o direito do pedestre à iluminação pública em abrigos e paradas de ônibus, passarelas, passagens subterrâneas e faixas de pedestres no DF, está em vigor.
“Foi a partir das denúncias e dos registros policiais de crimes sexuais contra mulheres, cometidos em alguns pontos, que mapeamos locais completamente escuros. Junto à Semob, levantamos um total de 400 paradas em situação de vulnerabilidade, com mato alto e iluminação precária”, disse ao Metrópoles o autor da legislação, deputado distrital Max Maciel (PSol).
O projeto foi aprovado na Câmara Legislativa (CLDF), chegou a ser vetado, mas teve o veto derrubado. A reportagem procurou o GDF para saber detalhes sobre a regulamentação da lei, mas não houve retorno. O espaço segue aberto para esclarecimentos.
Sobre os locais visitados pela reportagem, a CEB Ipes disse, por meio de nota, que na Via Estrutural e na EPNB, têm sido recorrentes os casos de atos de vandalismo nos quadros de comando e até furto de transformadores de energias elétrica, o que compromete o funcionamento da iluminação nessas regiões.
Em relação à Epig, a companhia informou que, nas tratativas com a Secretaria de Obras sobre as intervenções na via, condicionou a retirada da estrutura existente à prévia instalação de iluminação provisória pelo consórcio contratado.
“Assim, a responsabilidade pela implantação dessa iluminação — seja por luminárias ou por refletores — é exclusivamente da empresa executora das obras”, pontuou a CEB. A empresa também afirmou que, no Guará II, equipes realizaram, recentemente, manutenções nos postes.
“Mesmo assim, a CEB IPes informa que enviará equipes aos locais indicados, para vistoria e programação dos reparos necessários no menor prazo possível”, afirmou a nota.
A CEB IPes reforça a importância do registro de ocorrências pelos canais oficiais de atendimento. Como os postes ainda não contam com sistemas de telegestão, a comunicação da população é fundamental para identificar rapidamente falhas e agilizar a programação dos reparos.
FONTE: METRÓPOLES











