Novas “canetas para músculos” estão em testes para recuperar a perda muscular do envelhecimento

02 de setembro de 2026

A ciência prepara “canetas para músculos”, novos medicamentos injetáveis para preservar ou recuperar músculos perdidos com o envelhecimento, a sarcopenia. Tudo sem anabolizante. Mais de 40 substâncias estão em estudo atualmente.

Entre as candidatas mais avançadas estão substâncias como bimagrumab, da Eli Lilly, e trevogrumab, da Regeneron. Elas atuam sobre mecanismos do organismo que controlam o crescimento e a manutenção do tecido muscular.

“Temos uma sociedade que envelhece e precisa se manter saudável, ativa e independente. Preservar os músculos é essencial”, explicou Felipe Henning Gaia, chefe do Serviço de Endocrinologia Oncológica do A.C.Camargo Cancer Center e presidente da regional paulista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, ao jornal O Globo.

Como as ‘canetas para músculos’ funcionariam

Parte das drogas em desenvolvimento tenta bloquear proteínas que naturalmente limitam o crescimento muscular. Uma delas é a miostatina, substância produzida pelo próprio organismo que atua como uma espécie de freio para os músculos.

O trevogrumab, por exemplo, é um anticorpo desenvolvido para bloquear a miostatina. Em um estudo de fase 2 com pessoas com obesidade, pesquisadores avaliaram o medicamento em combinação com semaglutida, princípio ativo de canetas emagrecedoras.

Após 26 semanas, a Regeneron informou que a combinação conseguiu evitar aproximadamente metade da perda de massa magra observada com a semaglutida sozinha. Os resultados são promissores, mas ainda considerados preliminares e precisam ser confirmados em estudos maiores.

Outra substância é testada com semaglutida

O bimagrumab também está sendo estudado para preservar ou aumentar massa muscular durante o emagrecimento.

Um ensaio clínico de fase 2 patrocinado pela Eli Lilly reuniu 507 adultos com sobrepeso ou obesidade e comparou diferentes combinações de bimagrumab e semaglutida. O estudo foi concluído e analisou, entre outros pontos, as mudanças na quantidade de gordura e massa magra dos participantes.

Outra pesquisa, conduzida pelo Massachusetts General Hospital, está avaliando a combinação de bimagrumab com tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, para descobrir se é possível reduzir peso preservando melhor os músculos e os ossos.

Perda muscular aumenta com a idade

A busca por esses medicamentos também está relacionada à sarcopenia, nome dado à redução progressiva de massa, força e função muscular que pode acontecer com o avanço da idade.

A perda de músculos pode comprometer mobilidade e autonomia, além de aumentar o risco de quedas e fragilidade. Por isso, preservar massa muscular se torna especialmente importante entre pessoas mais velhas.

O problema também passou a receber mais atenção com a popularização das canetas emagrecedoras. Medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1 ajudam a reduzir principalmente gordura, mas parte do peso perdido pode incluir massa magra.

Ainda não estão disponíveis

Apesar do apelido, ainda não existe uma “caneta para músculos” aprovada e disponível nas farmácias para combater a perda muscular do envelhecimento.

Boa parte das substâncias está sendo administrada por injeção durante os estudos clínicos. O formato final dos medicamentos ainda dependerá dos resultados dos testes, da definição das doses e das aprovações das agências reguladoras.

Os pesquisadores também ressaltam que aumentar ou preservar a quantidade de tecido muscular não significa necessariamente recuperar força e função. Candidatos anteriores chegaram a aumentar massa magra, mas tiveram o desenvolvimento interrompido quando não conseguiram demonstrar benefícios funcionais suficientes ou apresentaram efeitos adversos.

Exercício continua fundamental

Mesmo que essas drogas sejam aprovadas no futuro, especialistas não esperam que substituam musculação e outras formas de atividade física.

“Não são para ganho extra de massa muscular. Não serão uma bala de prata”, afirmou o endocrinologista Clayton Macedo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ao comentar os medicamentos em desenvolvimento.

Os próximos estudos terão de mostrar se as substâncias conseguem preservar músculos e também se esse ganho se traduz em força, mobilidade e segurança para os pacientes. Só depois dessas etapas será possível saber quais delas poderão chegar ao mercado.