Vacina brasileira contra nicotina pode ajudar a combater vício de fumantes; pesquisa

01 de setembro de 2026


Em Itapira, no interior de São Paulo, pesquisadores do laboratório brasileiro Cristália desenvolvem uma vacina contra nicotina para ajudar pessoas que querem parar de fumar a evitar recaídas. O projeto está em uma fase inicial de pesquisa e, até agora, foi testado somente em animais. O Cristália é o mesmo laboratório que produz a polilaminina, da doutora Tatiana Sampaio.

“Nossa vacina foi concebida para interromper esse ciclo ao impedir que a nicotina chegue ao cérebro em quantidade suficiente para ativar esse mecanismo”, explicou o médico Ogari Pacheco, fundador do Cristália e responsável pela ideia que deu origem ao projeto.

Os primeiros resultados foram apresentados pelo laboratório na última quinta-feira (27), em Jaguariúna (SP). A pesquisa começou em maio de 2024 e está na etapa chamada Early Discovery, quando os cientistas selecionam os protótipos mais promissores e avaliam como eles funcionam em modelos experimentais.

Como a vacina contra nicotina funciona

A proposta é fazer com que o próprio sistema imunológico produza anticorpos capazes de reconhecer e capturar a nicotina ainda na corrente sanguínea.

Normalmente, a molécula da nicotina é pequena demais para provocar uma resposta do sistema imune. Na tecnologia pesquisada pelo Cristália, ela é ligada a uma estrutura que consegue ser reconhecida pelo organismo, estimulando a produção de anticorpos específicos.

Se a pessoa entrar em contato com nicotina depois da vacinação, esses anticorpos teriam a função de segurá-la no sangue e reduzir a quantidade que chega ao cérebro. Com isso, a substância não ativaria da mesma forma os mecanismos relacionados à liberação de dopamina e à sensação de prazer associada ao consumo.

Objetivo é ajudar a evitar recaídas

A vacina não está sendo desenvolvida para substituir os tratamentos usados para parar de fumar. Segundo os pesquisadores, a ideia é funcionar como uma ferramenta adicional para quem já decidiu abandonar a nicotina.

O principal alvo são as recaídas. Mesmo depois de um período sem fumar, o contato novamente com a nicotina pode ativar o sistema de recompensa do cérebro e favorecer a retomada do consumo.

“A vacina antitabagismo não substitui o tratamento: ela protege a continuidade dele”, afirmou Ogari Pacheco.

Testes ainda foram feitos apenas em animais

Nos experimentos realizados até agora, os antígenos desenvolvidos pelo laboratório estimularam a produção de anticorpos específicos contra a nicotina. Segundo o Cristália, o medicamento também conseguiu impedir a adicção em um modelo experimental com animais.

Esses resultados, porém, ainda são preliminares. A pesquisa não chegou à fase de testes em seres humanos e os dados também ainda não foram publicados em uma revista científica revisada por pares.

O laboratório informou que está reunindo os resultados para fazer o pedido de patente da tecnologia. A publicação científica deverá acontecer depois desse depósito.

O que falta antes dos testes em humanos

Antes de chegar aos voluntários, a vacina contra nicotina ainda precisa concluir estudos pré-clínicos de eficácia e segurança. Depois, serão necessárias etapas de desenvolvimento da formulação, aumento da escala de produção e preparação para os estudos clínicos.

Somente após essa fase poderão começar os testes em humanos, que precisarão avaliar segurança e eficácia antes de um eventual pedido de registro à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Por enquanto, não existe previsão de quando a vacina poderá estar disponível para pacientes.
FONTE: SÓ NOTÍCIA BOA