Família de motorista morto quer se mudar por medo: “Não podemos ficar”

10 de fevereiro de 2025

Medo e tristeza profunda. Assim familiares do motorista de transporte escolar Adriano de Jesus Gomes (foto em destaque), 50 anos, assassinado pelo empresário Francisco Evaldo de Moura, na quinta-feira última (6/2), definem a atual situação vivida por eles com a perda do ente querido.

Em entrevista ao Metrópoles, Elaine de Cassia Ferreira Gomes, 58 anos, esposa da vítima, disse que se sente “destruída” e adiantou que pretende mudar do endereço onde o marido foi assassinado.

“Estou destruída. Destruída. Ele [Adriano], cuidava da nossa família e de mim. Agora, aqui em casa, somos só eu e meu filho, e nós estamos assustados com a situação. Sentimos medo dele [Francisco] voltar para terminar o que tentou fazer: matar meu filho. Meu marido me ajudou a levantar essa casa. Tudo aqui lembra ele. A gente não consegue mais ficar aqui. Não podemos ficar onde ele foi assassinado”, desabafou a mulher, segurando as lágrimas.

À reportagem Elaine e o filho Gabriel Ferreira, 20, deram detalhes dos momentos que antecederam o homicídio.

“[Na data do crime] ele [Francisco] bateu várias vezes no portão. Colocou o rosto [em frestas], olhado para dentro. Minha mãe falou para ninguém sair, pois estava com medo dele [Francisco]. Quando o meu pai chegou, ele [assassino] começou a falar, iniciando uma discussão. Meu pai gesticulou, pedindo para ele voltar para casa e parar de confusão. Nesse momento, eu lembro dele dando dois passos para trás e sacado a arma”, contou Gabriel.

Ao Metrópoles, o rapaz contou que viu quando o empresário apontou a arma para ele e disparou. Por instinto, o jovem correu para casa, sem perceber que o pai havia sido ferido.


O que aconteceu

  • Na manhã de quinta (6/2), Francisco Evaldo de Moura discutiu com o motorista Adriano de Jesus Gomes e o filho da vítima, Gabriel Ferreira.
  • Francisco teria ido à casa de Adriano e iniciado discussão após ver o carro de Gabriel estacionado em área pública. Moradores da quadra relataram que Francisco acreditava ser dono desse espaço.
  • Câmeras registraram o momento da discussão entre os três envolvidos, bem como o tiroteio. Francisco sacou uma arma da cintura e disparou ao menos quatro vezes contra Adriano e Gabriel.
  • Adriano, conhecido como Tio Adriano por causa do trabalho como motorista de ônibus escolar, foi atingido no pescoço e no tórax. Ele não resistiu. Gabriel não foi ferido.
  • Após matar o vizinho, Francisco fugiu em um Chevrolet Ônix prata.

Ao perceber a movimentação, a mãe de Gabriel correu para tentar prestar socorro aos familiares.

“Eu cheguei até o portão e falei para eles voltarem para casa. Nisso, ele [Francisco] sacou a arma. Ai ele tentou atirar no Gabriel. Graças a Deus o meu filho correu. Caso contrário, a tragédia teria sido bem maior. Ao perceber que o Gabriel tinha corrido, o autor foi atrás do meu marido e começou a disparar contra ele”, contou a Elaine.

“Na hora eu fiquei muito nervosa. Eu lembro do meu marido entrar no portão e pedir para eu fechá-lo na tentativa de impedir que [Francisco] entrasse. Porém ele [atirador] entrou e deu três tiros no meu marido, que caiu”, narrou a mulher.

"Ele sempre esteve ao meu lado e ao lado dos meus filhos"
"É como se tivesse um buraco dentro de mim. Eu não durmo durante a noite porque eu sinto muito a falta dele [Adriano]"
"Eles [familiares] têm me obrigado [a ingerir algo] para que eu permaneça em pé"
à direita, Gabriel Ferreira Gomes, 20 anos, que também foi alvo dos disparos do empresário, descreveu o pai como seu herói pessoal
O jovem, que não ficou ferido, contou que apesar de toda a tristeza tem se mantido forte para cuidar da família

Brigas constantes

A desavença entre os vizinhos era antiga, segundo relatos. Principalmente devido ao local em que Adriano deixava estacionado o carro. Em uma ocasião anterior, Francisco ainda teria brigado com a esposa da vítima enquanto ela lavava a área da própria residência

Francisco confirmou que havia provocações entre ele e a vítima desde quando se mudou para a casa, há cerca de 15 anos

Prisão mantida

Após o crime, Francisco fugiu. No dia seguinte ao homicídio, o comerciante se apresentou à 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia Norte). Ao Metrópoles, horas antes de se entregar, o homem confessou o assassinato e disse se arrepender “amargamente”.

Na delegacia, o advogado do autor, Eduardo Vinicius Lopes de Castro, entregou a pistola usada no crime para um policial. A arma estava com uma munição na agulha, retirada no momento da apreensão.

De acordo com o assassino, a arma do crime pertence ao filho dele, que seria policial do Exército.

O empresário teve a prisão mantida na manhã deste domingo (9/2), após passar por audiência de custódia. Ele permanecerá preso até julgamento, sem data prevista.