
Logo na cozinha de um dos principais receptadores de cobre alvo da operação deflagrada nessa quinta-feira (25/6), a presença de utensílios de cobre chamou a atenção dos investigadores da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária (Decor), vinculada à Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF). O investigado, que já havia sido preso anteriormente pela corporação, também é apontado como um dos principais articuladores na revenda de cabos furtados no Distrito Federal.
Segundo as apurações, ele teria recebido cerca de R$ 15 milhões em transferências bancárias pela comercialização de fios de cobre, negociando diretamente com ladrões e intermediários do material. Embora não haja confirmação da origem dos utensílios encontrados em sua residência, os objetos reforçam, para os investigadores, a presença do cobre como elemento central tanto na cadeia criminosa quanto no cotidiano dos envolvidos.
As investigações da Decor apontam que cerca de 73% de todo o cobre movimentado pelo esquema teve como destino uma grande metalúrgica localizada em Minas Gerais, responsável por receber o material após a “regularização” documental feita por empresas de fachada.
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Processo de fundição
Esse cobre, segundo a polícia, era posteriormente destinado a processos industriais de fundição e moldagem, sendo utilizado em larga escala por empresas do setor metalúrgico e de condutores elétricos. O material, altamente reciclável, passava por etapas de revenda até chegar ao destino final com aparência de origem legal.
A Operação Ecossistemas do Cobre revelou a existência de dois núcleos criminosos integrados na mesma cadeia econômica do cobre furtado. De acordo com a delegada-adjunta da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária, Marcela Lopes, o primeiro núcleo atuava na receptação e comercialização do cobre furtado no DF, movimentando mais de R$ 45,5 milhões em menos de um ano por meio de uma empresa de fachada sediada em Tocantins.
O segundo núcleo era responsável por uma engrenagem fiscal fraudulenta, com 21 empresas de fachada no Distrito Federal, registradas em nome de “laranjas” e sem estrutura operacional. Essas empresas emitiram mais de R$ 1,4 bilhão em notas fiscais falsas, alimentando artificialmente a cadeia de legalização do material.
Grande metalúrgica
A empresa de fachada de Tocantins funcionava como elo entre os dois núcleos: recebia notas fiscais sem lastro comercial e repassava recursos aos receptadores, ao mesmo tempo em que emitia documentos destinados a uma grande metalúrgica mineira.
Mais de 73% dessas notas fiscais tiveram como destino essa empresa, que, somente em 2021, recebeu 212 documentos fiscais que somam aproximadamente R$ 97,1 milhões. No período de um ano, o grupo movimentou cerca de R$ 45,5 milhões apenas na ponta da receptação, enquanto a empresa central do esquema teria alcançado R$ 1,8 bilhão em movimentações financeiras entre 2023 e 2024.
As investigações também identificaram mais de R$ 25,5 milhões sacados em espécie, além de transferências para pessoas físicas sem compatibilidade financeira com os valores recebidos.
“Limpeza” do cobre
O inquérito revelou ainda um mercado estruturado de cobre furtado no Distrito Federal. Um dos métodos utilizados era a chamada “limpeza do cobre”, que consiste na retirada da capa plástica dos fios, muitas vezes por queima, para dificultar a identificação da origem.
O chamado “cobre mel” podia chegar a R$ 43 o quilo, enquanto o material furtado era comprado por valores entre R$ 28 e R$ 30, evidenciando a alta margem de lucro do esquema. A operação cumpriu 26 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, Minas Gerais, Tocantins e Paraná, com apoio de policiais civis de outros estados. A Justiça determinou ainda o sequestro de bens, direitos e valores que somam R$ 239,2 milhões.
Os investigados poderão responder por organização criminosa, crimes tributários, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. As apurações seguem para detalhar toda a cadeia do esquema — do furto dos cabos à industrialização do cobre no mercado formal.
FONTE: METRÓPOLES