Bandido exibia em casa utensílios feitos com fios de cobre roubados

26 de junho de 2026


Logo na cozinha de um dos principais receptadores de cobre alvo da operação deflagrada nessa quinta-feira (25/6), a presença de utensílios de cobre chamou a atenção dos investigadores da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária (Decor), vinculada à Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF). O investigado, que já havia sido preso anteriormente pela corporação, também é apontado como um dos principais articuladores na revenda de cabos furtados no Distrito Federal.

Segundo as apurações, ele teria recebido cerca de R$ 15 milhões em transferências bancárias pela comercialização de fios de cobre, negociando diretamente com ladrões e intermediários do material. Embora não haja confirmação da origem dos utensílios encontrados em sua residência, os objetos reforçam, para os investigadores, a presença do cobre como elemento central tanto na cadeia criminosa quanto no cotidiano dos envolvidos.

As investigações da Decor apontam que cerca de 73% de todo o cobre movimentado pelo esquema teve como destino uma grande metalúrgica localizada em Minas Gerais, responsável por receber o material após a “regularização” documental feita por empresas de fachada.

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Processo de fundição

Esse cobre, segundo a polícia, era posteriormente destinado a processos industriais de fundição e moldagem, sendo utilizado em larga escala por empresas do setor metalúrgico e de condutores elétricos. O material, altamente reciclável, passava por etapas de revenda até chegar ao destino final com aparência de origem legal.

A Operação Ecossistemas do Cobre revelou a existência de dois núcleos criminosos integrados na mesma cadeia econômica do cobre furtado. De acordo com a delegada-adjunta da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária, Marcela Lopes, o primeiro núcleo atuava na receptação e comercialização do cobre furtado no DF, movimentando mais de R$ 45,5 milhões em menos de um ano por meio de uma empresa de fachada sediada em Tocantins.

O segundo núcleo era responsável por uma engrenagem fiscal fraudulenta, com 21 empresas de fachada no Distrito Federal, registradas em nome de “laranjas” e sem estrutura operacional. Essas empresas emitiram mais de R$ 1,4 bilhão em notas fiscais falsas, alimentando artificialmente a cadeia de legalização do material.

Grande metalúrgica

A empresa de fachada de Tocantins funcionava como elo entre os dois núcleos: recebia notas fiscais sem lastro comercial e repassava recursos aos receptadores, ao mesmo tempo em que emitia documentos destinados a uma grande metalúrgica mineira.

Mais de 73% dessas notas fiscais tiveram como destino essa empresa, que, somente em 2021, recebeu 212 documentos fiscais que somam aproximadamente R$ 97,1 milhões. No período de um ano, o grupo movimentou cerca de R$ 45,5 milhões apenas na ponta da receptação, enquanto a empresa central do esquema teria alcançado R$ 1,8 bilhão em movimentações financeiras entre 2023 e 2024.

As investigações também identificaram mais de R$ 25,5 milhões sacados em espécie, além de transferências para pessoas físicas sem compatibilidade financeira com os valores recebidos.

“Limpeza” do cobre

O inquérito revelou ainda um mercado estruturado de cobre furtado no Distrito Federal. Um dos métodos utilizados era a chamada “limpeza do cobre”, que consiste na retirada da capa plástica dos fios, muitas vezes por queima, para dificultar a identificação da origem.

O chamado “cobre mel” podia chegar a R$ 43 o quilo, enquanto o material furtado era comprado por valores entre R$ 28 e R$ 30, evidenciando a alta margem de lucro do esquema. A operação cumpriu 26 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, Minas Gerais, Tocantins e Paraná, com apoio de policiais civis de outros estados. A Justiça determinou ainda o sequestro de bens, direitos e valores que somam R$ 239,2 milhões.

Os investigados poderão responder por organização criminosa, crimes tributários, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. As apurações seguem para detalhar toda a cadeia do esquema — do furto dos cabos à industrialização do cobre no mercado formal.

FONTE: METRÓPOLES