Escolas formam jovens contra o machismo e ensinam a reconhecer atitudes antes vistas como normais

21 de agosto de 2026


As pessoas precisam aprender desde cedo a reconhecer uma piada machista, identificar uma atitude de desrespeito contra meninas e perceber comportamentos que antes pareciam “normais” mas acabaram levando à violência que mata mulheres no Brasil. Esse é o aprendizado de mais de 100 mil estudantes das 134 escolas do Sesi-SP que participam de um programa contra o machismo e a misoginia.

Chamado Juventudes AntiMisoginia, o projeto funciona desde março de 2025 e envolve adolescentes em debates, campanhas e atividades sobre igualdade de gênero, respeito e violência contra mulheres. A proposta é discutir o assunto ainda na escola, antes que determinados comportamentos sejam levados para a vida adulta.

E um detalhe chama a atenção: a ideia nasceu dos próprios alunos. O programa foi inspirado em uma mobilização iniciada por estudantes da Escola Sesi de Regente Feijó, no interior de São Paulo, e depois foi ampliado para toda a rede estadual.

Alunos participam das decisões

Em vez de limitar o assunto a uma palestra ocasional, cada escola forma comitês com estudantes do 9º ano do ensino fundamental e do ensino médio.Cada turma escolhe três representantes: duas meninas e um menino. O grupo trabalha acompanhado por um professor ou professora responsável.

Os estudantes ajudam a organizar rodas de conversa, campanhas e outras ações dentro da escola. Professores também recebem orientações para levar as discussões às salas de aula durante o ano.

Embora os comitês sejam formados pelos alunos mais velhos, as atividades chegam a estudantes de outras idades. Em uma das ações mostradas pelo Sesi-SP, por exemplo, adolescentes do projeto participaram de uma atividade com crianças do 5º ano.

Por que discutir machismo é tão importante

Os números ajudam a mostrar a importância desse trabalho.

O Brasil registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número desde que esse crime passou a ser registrado dessa forma no país, em 2015, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso significa que, em média, mais de quatro mulheres foram assassinadas por dia por razões relacionadas à condição de serem mulheres.

Desde março de 2015, quando entrou em vigor a legislação sobre feminicídio, ao menos 13.703 mulheres já foram vítimas desse tipo de crime no Brasil. E a violência continua sendo um problema em 2026. Somente entre janeiro e junho deste ano, o país registrou 741 feminicídios, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Houve uma pequena queda de 2,5% em relação ao mesmo período de 2025, quando foram contabilizadas 760 vítimas.

As tentativas também preocupam. Dados oficiais mostram que foram registradas 3.813 tentativas de feminicídio em 2025, uma média superior a dez mulheres atacadas por dia. A taxa desse tipo de crime mais que dobrou no país entre 2020 e 2025.

Aprender a identificar o machismo

Um dos objetivos desse programa escolar do SESI é justamente mostrar que a misoginia nem sempre aparece de forma explícita.

Comentários sobre meninas, brincadeiras ofensivas, tentativas de controlar comportamentos e ideias repetidas nas redes sociais podem ser tratados como normais entre adolescentes sem que eles percebam o problema.

O programa ganhou ainda mais visibilidade em julho deste ano, quando foi mostrado pelo Globo Repórter em uma edição sobre masculinidades e o crescimento de conteúdos ofensivos contra mulheres nas redes sociais. As gravações foram feitas na Escola Sesi Tatuapé, na capital paulista.

Meninos, aprendam. Meninas, denunciem!