Remédio contra artrite faz cabelo voltar a crescer em pacientes com alopecia grave

10 de setembro de 2026


Um remédio já usado contra artrite reumatoide surpreendeu cientistas depois de devolver grande parte do cabelo a pacientes com alopecia grave. Em dois estudos clínicos de fase 3, metade das pessoas que receberam a dose mais alta do upadacitinibe terminou seis meses de tratamento com pelo menos 80% do couro cabeludo coberto por cabelos. O tratamento já foi aprovado na Europa.

A pesquisa foi liderada por cientistas ligados ao Brigham and Women’s Hospital, nos Estados Unidos, e reuniu especialistas de instituições de vários países. Os resultados foram publicados no último dia 12 na revista científica JAMA Dermatology. Ao todo, 1.399 adultos e adolescentes participaram dos testes realizados em centros da América, Europa e Ásia.

Todos tinham alopecia areata grave e haviam perdido pelo menos metade dos cabelos do couro cabeludo. Entre os participantes estavam 118 adolescentes de 12 a 17 anos. O objetivo era saber se o upadacitinibe, medicamento que atua sobre o sistema imunológico e já é empregado contra doenças inflamatórias, poderia estimular a recuperação dos fios.

Como age o medicamento

A alopecia areata é uma doença autoimune. O sistema imunológico passa a atacar os folículos capilares, provocando áreas de queda de cabelo que podem avançar até a perda completa dos fios do couro cabeludo e, em casos mais graves, de pelos do corpo.

O upadacitinibe, vendido com o nome comercial Rinvoq, pertence à classe dos inibidores de JAK. Essas substâncias interferem em sinais usados pelo sistema imunológico e já são empregadas no tratamento de doenças inflamatórias, entre elas a artrite reumatoide.

Os pesquisadores também analisaram o impacto emocional do tratamento. Foram registradas melhoras em indicadores relacionados à qualidade de vida e aos efeitos psicológicos provocados pela alopecia, embora nem todas as análises específicas de ansiedade e depressão tenham apresentado diferença estatisticamente significativa.

Efeitos colaterais e financiamento

Os efeitos adversos mais frequentes entre os pacientes tratados foram infecções das vias respiratórias superiores, acne, alterações em uma enzima muscular chamada creatina fosfoquinase e nasofaringite.

Eventos adversos graves ocorreram em 1,6% dos pacientes tratados com 15 mg e em 2,3% dos que receberam 30 mg, contra 0,4% no grupo placebo. Os pesquisadores informaram que não surgiram novos sinais de segurança durante as primeiras 24 semanas do estudo.

Há também um ponto importante sobre a independência da pesquisa. Os estudos foram financiados pela AbbVie, fabricante do upadacitinibe. A empresa participou do desenho da pesquisa, da coleta e análise dos dados e da revisão do artigo, e vários autores declararam vínculos financeiros ou profissionais com a farmacêutica.  Os resultados, no entanto, passaram por revisão científica e já tiveram consequência regulatória.

Aprovado na Europa

Em 29 de julho, a Comissão Europeia aprovou o Rinvoq para o tratamento da alopecia areata grave em adultos e adolescentes com 12 anos ou mais.

A autorização foi baseada no programa clínico que incluiu esses dois estudos de fase 3.