Apesar de o Alzheimer ser um tipo de demência e estar ligado intimamente com o cérebro, estudos recentes mostram que a saúde do intestino pode influenciar no risco de desenvolver a doença.
Duas pesquisas feitas por cientistas do King’s College London, no Reino Unido, e que serão apresentadas na conferência médica Alzheimer’s Research UK 2022 nesta quinta (3/3), adicionam mais evidências da importância do órgão. As duas foram publicadas apenas em versão pré-print, ou seja, ainda não foram avaliadas pela comunidade científica.
A primeira delas analisou a flora intestinal (a comunidade de bactérias) do intestino de 68 pacientes com Alzheimer e comparou com dados de um número semelhante de pessoas que não têm a doença. As amostras de sangue e de fezes foram analisadas em um laboratório na Itália, e os resultados mostram várias diferenças entre a microbiota dos dois grupos é muito diferente.
As pessoas com Alzheimer tinham também mais marcadores de inflamação — para os cientistas, o tipo de bactéria no intestino influencia os níveis de inflamação do corpo, e o sintoma é considerado um dos principais fatores de risco para desenvolvimento de demência.
“A maioria das pessoas fica muito surpresa que as bactérias do intestino podem estar ligadas com a saúde do cérebro. Porém, a evidência está se acumulando e estamos começando a entender como isso acontece”, explicou a neurocientista Edina Silajdžić, uma das autoras do levantamento, em entrevista ao jornal Daily Mail.
Transplante de fezes
Outra pesquisa que será apresentada hoje promoveu transplantes de fezes de pessoas com e sem Alzheimer para ratos. A ideia era implantar bactérias do intestino de cada tipo do paciente em um animal saudável para avaliar, em testes de memória, se a nova flora intestinal teria algum impacto.
“Os ratos com bactérias intestinais de pessoas com Alzheimer foram pior nos testes de memória”, conta a neurocientista Yvonne Nolan. O grupo liderado pela pesquisadora também percebeu que esses animais não tiveram desenvolvimento de novas células nervosas nas áreas do cérebro associadas com a memória e ainda apresentaram níveis maiores de inflamação.
Para Nolan, os resultados sugerem que o Alzheimer pode, pelo menos em parte, causar anormalidades no trato gastrointestinal. Segundo a cientista, as descobertas apontam que medicamentos para a doença que têm o intestino como alvo podem ser mais eficientes do que aqueles que miram o cérebro.
“Enquanto continua sendo difícil atingir os processos do Alzheimer no cérebro, o intestino potencialmente representa um alvo alternativo que pode ser mais fácil de influenciar com drogas ou mudanças na dieta”, sugere a cientista.
Fonte: Metrópoles