A filial de Taguatinga da empresa de móveis planejados Corazi (foto em destaque) acumula ao menos 64 processos no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT).
Em oito ações analisadas pelo Metrópoles, consumidores pedem rescisão contratual, restituição de valores e indenizações por danos materiais e morais. Somados, os processos consultados totalizam R$ 494.531,33 em valores atribuídos às causas.
As denúncias envolvem, principalmente, a unidade de Taguatinga, que teria fechado as portas, segundo relatos de clientes.
Duas consumidoras ouvidas pelo Metrópoles afirmam ter pago valores altos por móveis planejados que não foram entregues ou ficaram incompletos, com prejuízo financeiro e dificuldades para obter resposta da empresa.
Somados, somente esses dois casos representam um prejuízo de ao menos R$ 93,790, valor já pago pelas consumidoras. Considerando o valor total dos contratos assinados, o montante chega a R$ 115.120.
Casos incluem pedidos de restituição e indenização
Os processos consultados envolvem consumidores que relatam descumprimento contratual, principalmente por pagamento sem entrega dos móveis, atrasos prolongados ou entrega incompleta.
As ações analisadas incluem pedidos de rescisão contratual com devolução integral dos valores pagos, além de solicitações de indenização por danos materiais e morais.
Além da empresa vinculada ao CNPJ de Taguatinga, alguns processos citam também outras pessoas jurídicas ligadas à operação, como a CRZ Representações Ltda e a FJR Planejados. Em uma das ações, o banco Santander aparece no polo passivo, por envolver financiamento associado ao contrato.
Entre os relatos descritos nos processos consultados estão casos de móveis nunca entregues, mesmo após pagamento integral ou entrada elevada; justificativas recorrentes atribuídas a supostos atrasos de fábrica; dificuldades de contato com representantes; e situações em que consumidores afirmam que a empresa teria encerrado as atividades sem solucionar pendências.
Há ainda ações relacionadas a prestação de serviço defeituosa, com alegações de montagem inadequada, medições incorretas e falhas estruturais nos móveis instalados, levando clientes a pedirem reexecução do serviço ou reparação judicial.
O advogado ouvido pelo Metrópoles afirmou que, embora nem todos os 64 processos possam ser classificados como golpe, a maioria tem origem em problemas semelhantes, envolvendo consumidores que alegam prejuízo financeiro e frustração por não receberem o que foi contratado.
“Todo mês eu choro”
A empresária Bruna Oliveira, uma das vítimas, contou ao Metrópoles que contratou móveis planejados no final de setembro de 2024, após ver um anúncio no Facebook. Segundo ela, o atendimento ocorreu na unidade da empresa em Taguatinga, na região da QNJ. O contrato incluía móveis para quatro quartos e varanda.
“Eu já tinha buscado algumas referências deles e nunca tinha achado nada contra. Então resolvi fechar”, relatou.
Bruna afirma que o contrato ficou em torno de R$ 42 mil, parcelado em 24 prestações de R$ 1.750. “Como o financiamento eu fiz com o banco, eu paguei 100% à vista para eles [loja], coisa que eu não deveria ter feito”.
Segundo a cliente, a empresa prometeu entregar o material em novembro e concluir a montagem até o fim de dezembro de 2024. No entanto, os prazos não foram cumpridos. “Deu novembro, deu dezembro e nada”, disse.
Ela relata que as peças só foram entregues entre 20 e 25 de janeiro de 2025 e que a montagem começou apenas após o Carnaval, no início de março. “Fiquei com um monte de madeira jogada no meio da minha casa, quase um mês”, afirmou.
Segundo ela, o serviço foi concluído com falhas e pendências em vários cômodos.
“Montaram várias peças erradas e ficaram faltando várias peças da varanda. Meu marido teve que apertar os parafusos”, relatou.
Ainda de acordo com Bruna, faltaram prateleiras e acabamentos em diferentes quartos, além de instalação equivocada de painel em um dos ambientes.
A cliente afirma que tentou resolver o problema por meses, mas passou a receber justificativas relacionadas a supostos problemas na fábrica, localizada no Sul do país. “Eles diziam que era um problema na fábrica, no Paraná”, disse.
Após um tempo, o contato que tinha do dono parou de atender e a loja fechou as portas, contou.
Sem resposta definitiva, ela entrou na Justiça para tentar suspender pelo menos o pagamento do financiamento ao banco. “Todo dia 16 eu choro muito, porque tenho que pagar a prestação do financiamento de uma coisa que eu não recebi”, afirmou.
“Não tive meu sonho realizado”, contou.
“Nem uma única gaveta”
Outra consumidora, a bancária Fabíola Nunes, também afirma ter sido lesada após contratar a Corazi por meio de anúncios no Instagram.
Segundo ela, a família buscava orçamento para móveis planejados do apartamento e optou pela unidade de Taguatinga, onde, inicialmente, foi bem atendida para orçamento e contratação.
O contrato foi fechado em março de 2025, envolvendo móveis para dois quartos, sala, cozinha e lavanderia. Fabíola afirma ter pago R$ 51.670, valor correspondente a 75% do contrato — percentual exigido como entrada mínima pela empresa. O restante, até totalizar R$ 73 mil, seria quitado na entrega dos móveis.
O prazo estabelecido era de 65 dias úteis após a aprovação do projeto, o que levaria a entrega para a segunda quinzena de julho de 2025.
A cliente relata que aprovou o projeto em abril e que, no início de junho, começou a cobrar informações sobre a fabricação dos móveis, supostamente produzidos no Sul e enviados prontos para instalação. Foi quando descobriu que o vendedor/projetista responsável já não trabalhava mais na empresa.
De acordo com Fabíola, o atendimento passou a ser feito por uma funcionária chamada Francione, que prometia retorno após “contato com a fábrica”, mas demorava a responder.
“As justificativas eram sempre vagas: atrasos, problemas na produção, promessas de que a entrega ia extrapolar um pouco”, disse.
A consumidora afirma que três datas de entrega foram marcadas e nenhuma foi cumprida. “Não recebemos absolutamente nada, nem mesmo uma única gaveta”, declarou.
Fabíola conta que registrou reclamação no Reclame Aqui em agosto de 2025 e que, ao perceber o aumento de queixas, decidiu ir presencialmente à loja e protocolar uma notificação extrajudicial buscando solução. Segundo ela, a empresa se comprometeu a retornar, mas nunca apresentou proposta ou entregou qualquer móvel.
Atualmente, a cliente afirma que entrou com processo judicial buscando ressarcimento.
“Além do dano financeiro expressivo, a situação gerou impacto significativo na saúde de toda a família. Tivemos que nos mudar sem nenhum dos móveis contratados e, até hoje, não conseguimos mobiliar nosso próprio apartamento”, relatou.
Unidades seguem divulgadas nas redes sociais
Apesar das denúncias envolverem principalmente a unidade de Taguatinga, as clientes relatam que a loja da região fechou as portas.
Ainda assim, a marca mantém presença nas redes sociais e segue divulgando unidades em Águas Claras e na Asa Norte, com perfis ativos no Instagram, além de unidades fora do DF.
Conforme consulta a registros públicos do Ministério da Fazenda, as unidades da Corazi têm CNPJs diferentes e os registros empresariais indicam também sócios-administradores distintos para cada estabelecimento, o que pode dificultar a responsabilização direta em alguns casos, dependendo da configuração jurídica e contratual adotada.
Reclamações em site de defesa ao consumidor
Além das ações judiciais, a empresa acumula reclamações na plataforma Reclame Aqui, onde consumidores relatam atrasos, descumprimento de contrato, falta de entrega e dificuldades para obter retorno após pagamento.
No site, a Corazi aparece com reputação “Não recomendada” e nota média baixa — 2,9 de 10 nos últimos seis meses, com média de avaliação de apenas 0,64 entre quem classificou o atendimento.
Dos consumidores que avaliaram a experiência, 0% afirmaram que voltariam a fazer negócio com a empresa, e a Corazi resolveu apenas cerca de 28,6% das reclamações recebidas, apesar de ter respondido 93,3% dos casos postados. O tempo médio de resposta é de pouco mais de três dias.
Nas respostas registradas na plataforma, a empresa costuma lamentar a situação relatada pelos consumidores e afirmar que busca encaminhar os casos às unidades franqueadas, alegando que cada loja tem responsabilidade própria e que a franqueadora procura apoio quando possível.
Em algumas respostas, a Corazi reforça que não compactua com irregularidades, que pretende acompanhar os casos e que está à disposição para tentar solucionar questões individualmente.
Contudo, muitas dessas respostas são percebidas por consumidores como genéricas ou insuficientes para resolver efetivamente o problema, conforme réplicas registradas na plataforma.
Outro lado
O Metrópoles entrou em contato com o sócio-administrador da Corazi de Taguatinga e ainda não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.





